domingo, 22 de março de 2015

GIRL STYLE NOW!!!


Produzido em 2013, o documentário The punk singer é algo muito pertinente nos tempos de FEMEN, Marcha das Vadias e derivados em que vivemos. Seu sujeito é Kathleen Hanna, à primeira vista nada mais que um rostinho bonito arquetípico da década de 1990. A aparência inofensiva esconde uma das maiores forças do feminismo no rock’n’roll.

Atualmente, Kathleen se apresenta com o The Julie Ruin. Antes disso, fez algum sucesso com o electropop do Le Tigre. Mas ela cravou seu nome no circuito alternativo como vocalista do Bikini Kill, banda formada em 1990 na cidade de Olympia, Washington. Os registros oficiais são poucos – dois discos, um split, um EP e uma fita cassete –, a representatividade é gigante.

Apesar da natureza subversiva, o punk rock sempre foi marcado pela proeminência masculina. Tanto no palco quanto na plateia os homens eram maioria e sua violência deliberada não era algo exatamente atrativo para o sexo oposto. O Bikini Kill apareceu como um fenômeno meteórico para quebrar todos esses paradigmas: era punk rock feito por garotas.


Em 7 anos de existência, Kathleen Hanna, Kathi Wilcox, Tobi Vail e Billy Karren (o representante masculino no grupo) lançaram as bases para o riot grrrl sem medo de serem julgadas, discriminadas ou incompreendidas. E a insana energia de Kathleen foi essencial para que a mensagem fosse devidamente passada.

No palco, geralmente de camiseta e calcinha, a vocalista berrava letras sobre estupro, incesto e sexismo com tanta displicência que chegou a despertar a ira de homens. As ameaças de morte e o sensacionalismo da mídia em cima do riot grrrl na segunda metade dos anos 1990 causaram tantos problemas ao Bikini Kill que, em 1997, elas abandonaram a cena e entraram para a História.

Das escassas gravações que deixaram, o EP homônimo de 1992 é provavelmente a mais emblemática. Produzido por Ian MacKaye, o disquinho é uma pedrada punk alucinante de 15 minutos em que as letras e a performance enérgica de Kathleen são os maiores destaques. Segue trecho de Suck my left one:

"Daddy comes into her room at night
He's got more than talking on his mind
My sister pulls the covers down
She reaches over, flicks on the light
She says to him: SUCK MY LEFT ONE

Mama says:
'You have to be polite, girl
You have got to be polite
Show a little respect for your father
Wait until your father gets home'
Fine, fine, fine..."

O Bikini Kill angariou vários admiradores famosos, entre eles Joan Jett, Kurt Cobain, Kim Gordon e Thurston Moore, mas sempre manteve sua atitude anti-mainstream. E a ideologia do riot grrrl segue primordial nos dias de hoje, visto que a igualdade entre sexos ainda é um ideal distante. Ouvir Bikini Kill é pelo menos manter a centelha acesa.

WE’RE BIKINI KILL AND WE WANT REVOLUTION: GIRL-STYLE NOW!!! 

O documentário:


segunda-feira, 2 de março de 2015

New wave? NO WAVE!


Quem matou o punk? Ou melhor, o que matou o punk?

A resposta é simples, basta pensar na banda punk que rendeu mais polêmica por onde passou: os Sex Pistols. Quando os ingleses apareceram, avacalhando com os bons costumes de sua terra numa atitude contestadora e iconoclasta emprestada dos nova-iorquinos, o clima nos bastidores do movimento já era tenso; a última coisa de que precisavam era a atenção massiva da mídia. A morte do emblemático Sid Vicious e o misterioso assassinato de sua namorada Nancy Spungen meses antes só serviram para jogar as últimas pás de terra no caixão punk. Portanto, na virada de 1978 para 1979 a efervescência cultural nos becos de Nova York já não era mais a mesma.

Brian Eno
Quando Brian Eno foi para a metrópole em 1978, ele não estava à procura da próxima grande tendência urbana. Na verdade, ele só viajou até lá a fim de masterizar o segundo álbum do Talking Heads. Mas, num despretensioso festival de bandas underground, acabou testemunhando outra manifestação até mais drástica que o finado punk e igualmente digna de atenção. 

Durante o festival, Eno presenciou o grito selvagem de pessoas que vinham fazendo barulho desde o auge punk – Mars, Contortions e Teenage Jesus & The Jerks – e outras que acabavam de adentrar a contracultura – caso do DNA. Independente disso, as quatro bandas tinham algo em comum: a transbordante abstração. Nenhuma delas sabia o que queria fazer, tampouco dominava seus instrumentos, mas quem se importava? Elas estavam fazendo alguma coisa. E não há nada mais punk que isso.

O artista, que àquela altura já tinha Robert Fripp e David Bowie no currículo, ficou impressionado com o que viu e ouviu e não teve dúvidas na hora de convidar os quatro grupos para a gravação de um álbum conjunto. Logo, na primavera de 1978, praticamente ao vivo em estúdio, foi registrado o manifesto mais conhecido da chamada no wave:


A coletânea saiu pela Antilles Records e não chegou sequer a conquistar um lugar modesto na Billboard. Os críticos se dividiram: uns gostaram, outros odiaram e outros, ainda, não entenderam absolutamente nada. Relançamentos? Só no Japão e na Rússia, décadas depois da primeira prensagem. Mas a influência do material ultrapassou essa inacessibilidade.

Inacessibilidade, aliás, é a palavra de ordem. Mesmo assim o disco guarda seus momentos um pouco mais palatáveis nas canções do Contortions, que abre os trabalhos, e nas do DNA, última banda do lado B.

O Contortions tem como fio condutor o saxofone e os vocais de seu líder, o maníaco James Chance, que usa o resto da banda como base para experimentações free jazz e berros ininteligíveis. Mas, guardadas as devidas proporções, a amálgama de jazz, funk e cacofonia chega a ser dançante. A prova maior está em I can’t stand myself, esquizofrênico cover de James Brown. Há ecos do punk rock no DNA e, em Not moving, por exemplo, surge uma espécie de refrão. A presença do órgão é outro diferencial do grupo, mas o destaque vai para as palhetadas espasmódicas de Arto Lindsay, também um vocalista notável.

Os momentos mais intrigantes de “No New York” estão nos dois nomes intermediários: Teenage Jesus & The Jerks (sensacional!) e Mars.

A primeira tem Lydia Lunch, a personalidade mais conhecida da no wave, na guitarra e nos vocais. O som é minimalista até o osso: “riffs”, bateria tribal e vocalizações desesperadas que resultam num clima claustrofóbico e atingem seu auge em The closet. E então vem o Mars, que consegue superar todos os padrões de estranheza da coletânea sem economizar nos ruídos ensurdecedores ou nos murmúrios incompreensíveis que permeiam as faixas. Tunnel, genuíno caos anti-musical, é o maior comprovante da proeza.


Com a mãozinha de Brian Eno, era oficial: a no wave, trocadilho infame com new wave, existia e ia muito bem. Só que havia outro personagem primordial além dos documentados em 1978...

Glenn Branca começou sua carreira artística em 1975 como, digamos assim, um dramaturgo alternativo ao fundar o grupo teatral Bastard Theatre em Boston. As boas avaliações de suas peças o motivaram a ir para Nova York continuar experimentando, mas assim que ele entrou em contato com aquela cena em ebulição, trocou as performances teatrais pelo instrumento que tocava desde os 15 anos, a guitarra.

Suas primeiras bandas foram as breves Static e Theoretical Girls. Com elas, Branca começou a dar forma ao seu estilo nada ortodoxo de tocar guitarra mesclando afinações alternativas, repetições e séries harmônicas, tudo no volume máximo. À certa altura ele começou a procurar mais guitarristas para compor sua orquestra e em 1980 estreou o primeiro sexteto – quatro guitarras, baixo e bateria – no EP “Lesson No. 1”Hoje considerado uma obra essencial da no wave, o debut de duas faixas abriu alas para a entrada de Lee Ranaldo e o começo da composição do trabalho definitivo de Branca: 


Uma linha de baixo penetrante, tons e caixa em sintonia e então – !!! – uma parede sonora tão ensurdecedora quanto cacos de vidro furando os tímpanos formada por quatro guitarras em comunhão ritualística. Lesson No. 2 abre “The Ascension” criando um clima opressor e onipresente.

O nome foi inspirado no homônimo disco de John Coltrane, um marco do free jazz, e a configuração da banda lembra a divisão entre sax barítono, alto, tenor e soprano. No texto da reedição de 2003, Lee Ranaldo confirma a analogia. Não por acaso, posteriormente Branca passou a batizar suas composições como sinfonias.

E faz todo o sentido. O entrosamento completo entre os guitarristas, cada um criando uma base diferente até todas entrarem em uníssono, é comparável ao trabalho de uma orquestra de tamanho reduzido. Glenn é o bandleader, o maestro que faz a orquestra ir do caótico ao melódico sutilmente.

As cinco peças instrumentais soam como uma busca pela ascensão, e quando a derradeira faixa-título finalmente chega a um terreno acima de nós, acaba sem delongas e deixa o ouvinte arfando por mais. Por essas e por outras, “The Ascension” transcendeu a no wave e o rock’n’roll e tem um lugar só seu na História da música.

Glenn Branca e seus discípulos. Detalhe para os dois primeiros da esquerda para a direita. KOOL THING!

E depois?

Ao contrário do punk, a no wave não se transformou num fenômeno cultural badalado, muito menos teve um fim definido. Mas o termo não caiu em desuso e permeia a música alternativa até os dias de hoje. O Sonic Youth, exemplo mais conhecido da influência do movimento, criou-se no underground novaiorquino e era classificado como no wave nos primórdios. A importância da obra de Glenn Branca para a dupla Thurston Moore e Lee Ranaldo é inestimável e facilmente perceptível. Alguns nomes do pós-punk, como Public Image Ltd. e Swans, também usaram a experimentação indiscriminada como referência.

Quanto aos no-wavers originais, alguns desapareceram no submundo e outros conseguiram manter a relevância. É o caso de Lydia Lunch, dona de uma vasta discografia e carreira respeitável como fotógrafa, poeta e atriz. O Contortions faz shows esporádicos e chegou a vir a São Paulo capital em 2013. Glenn Branca, o artista mais consagrado a sair da cena, segue escrevendo peças, tanto para guitarras quanto para orquestras convencionais, e é endeusado na Europa.

Mais recentemente, saiu no exterior o livro “No wave: post-punk. Underground. New York. 1976-1980”, escrito por Thurston Moore e Byron Coley, que me parece muito interessante e dificilmente será publicado por aqui. Diversas coletâneas abordando grupos ainda mais obscuros surgem ocasionalmente, bem como documentários, sendo a produção “Kill Your Idols” a mais citada.

Para terminar, uma frase de Lydia Lunch que explica e sintetiza o espírito desordeiro da no wave: “The whole fucking country was nihilistic. What did we come out of? The lie of the Summer of Love into Charles Manson and the Vietnam War. Where is the positivity?”. Perfeito. É isso aí.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

MELVINS



Ao vivo no Hellfest em 2011. Duas baterias, uma guitarra e um baixo. Melvins!!!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Overdose garantida


1971. Os Stooges, a mais nova banda a chacoalhar as estruturas do rock’n’roll, são demitidos da Elektra apenas três anos após o contrato ser firmado. Entre 1969 e 1970 eles gravaram duas das obras mais caóticas da virada da década - o autointitulado“Fun House” - e deixaram um rastro de destruição meteórica por onde passaram. Mas isso não foi o bastante para construir um público. O som furioso, prenúncio do punk rock, também não ajudou.

Logo, não restou nenhuma alternativa ao frontman Iggy Pop a não ser sair de seu estado de origem, Michigan, e ir de encontro à efervescência cultural de Nova York. Lá, ele entrou em contato com o ascendente David Bowie e conseguiu um empresário, Tony Defries, para tentar manter sua alucinante carreira estável. O próximo passo foi reunir músicos.

Quando chegou a Nova York, Iggy já tinha em sua companhia o guitarrista James Williamson, com quem viria a escrever todas as músicas da última fase dos Stooges. Por mais que o plano inicial fosse montar uma banda nova, a dupla não tardou a perceber que eles precisavam dos antigos colegas do vocalista: os irmãos Ron e Scott Asheton. Então, um ano depois do fim, o trio mais selvagem de Detroit estava junto de novo, acompanhado por um guitarrista que nunca havia entrado em um estúdio antes. E com essa formação eles gravaram a obra máxima dos Stooges.

Da esquerda para a direita: James Williamson, Iggy Pop, Ron Asheton e Scott Asheton

A principal diferença entre a primeira e a segunda encarnação da banda é a presença de Williamson, que obrigou Ron, o antigo guitarrista, a passar para o baixo. O baixista original era Dave Alexander, demitido por beber demais (!) em 1970. De resto, estava tudo ali: a mesma inconsequência, a mesma loucura e os mesmos excessos. Eles começaram as sessões do terceiro álbum em setembro e saíram do estúdio no dia 6 de outubro de 1972 com oito faixas brutais, para dizer o mínimo.

Recepções e vendas calorosas nunca foram uma constante na carreira de Pop e seus comparsas, e com “Raw Power” não foi diferente. Diante das vendas pífias, Defries abandonou a banda e a CBS, gravadora que lançou “Raw Power”, também fez o mesmo. Eles sobreviveram até 1974 com apresentações bizarras marcadas pelo comportamento antagônico de um Iggy cada vez mais insano. Quando os Stooges finalmente implodiram, David Bowie foi responsável pelo ressurgimento do vocalista em uma carreira solo expressiva.

Com o passar dos anos a magnitude de “Raw Power” só aumentou. Kurt Cobain o citou diversas vezes em seus diários como seu álbum favorito de todos os tempos. Henry Rollins (Black Flag) tem “search & destroy”, o nome da faixa de abertura, tatuado nas costas. De acordo com Steve Jones (Sex Pistols), ele aprendeu a tocar guitarra ouvindo o álbum chapado de anfetamina. Nem mesmo o polêmico Morrissey ficou incólume diante do poder de fogo de “Raw Power”, caracterizando Search and destroy como “ótima” e “uma música muito Los Angeles”.

E então eis que, em 1997, a Columbia convida Iggy Pop para remixar o disco originalmente remixado por Bowie em 1973. Desde a década de 90, cópias com a mixagem original circulavam entre fãs e Pop citou isso como a principal razão pela qual ele aceitou o convite. Mas essa empreitada só deu margem para mais confusão.

Comparando o som original com o relançamento, a primeira característica que salta aos ouvidos é o volume da cozinha dos Asheton. Em nenhum dos dois ela toma o lugar da guitarra ou do vocal, mas Bowie fez com que a banda toda soasse uniforme, enquanto Iggy deixou os riffs e solos de Williamson no talo e fez cada música soar como uma corrida entre baixo-bateria e guitarra-vocal. Numa audição mais atenta, é perceptível a menor duração do relançamento, principalmente em Death trip, a última faixa. Penetration também merece nota por ter seus ruídos psicodélicos diminuídos.

O relançamento é motivo de discórdia entre os fãs até hoje. Mas, no fim das contas, qual dos dois é melhor: o som mais encorpado da primeira versão ou a crueza brutal da segunda? Fico com a segunda por puro costume. É a versão que eu comprei e já me acostumei com sua brutalidade ensurdecedora. Para mim, “Raw Power” soa absolutamente fantástico desse jeito. Desde o início arrebatador com Search and destroy até o final improvisado com Death trip, passando pela melódica Gimme danger e pela maníaca Penetration, é puro caos. E é demais. Um dos melhores e maiores discos da história do rock’n’roll.


Clique aqui para baixar a mixagem de David Bowie de 1973.

Clique aqui para baixar a remixagem de Iggy Pop de 1997. Obs.: de acordo com o Chicago Mastering Service, esse é o CD mais alto de todos os tempos e “the most ear-fatigue-inducing way to get things loud”. Digno.

É o seguinte: baixe ou compre qualquer uma das duas edições (a de 1997 é mais fácil de se achar), coloque no seu aparelho de som no volume máximo e assista todo o seu quarto ser chacoalhado pelo verdadeiro poltergeist que é “Raw Power”. Experiência incrível, eu te garanto.

Raw power is sure to come a-runnin' to you!!!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Uma viagem desafiadora


Não é de hoje que o death metal sueco é referência para os entusiastas do gênero. Ao começo da década de 90, nomes como Entombed e Unleashed formaram a linha de frente da cena metálica da Suécia e assombraram o mundo com uma sonoridade toda original cujo aspecto mais notável era o timbre denso das guitarras. Tempos depois foi injetada certa dose de melodia ao massacre auditivo, como pode ser visto nos trabalhos do Arch Enemy e do At The Gates, por exemplo. Mas nada tão fora dos padrões suecos, visto que por aquelas bandas também há o Opeth, que nunca se assumiu completamente death e vem cada vez mais se afastando do gênero.

Tendo uma instituição como essa a sua volta, é comum que grupos mais recentes do país nórdico sigam as fórmulas dos predecessores. E não foi diferente com o Morbus Chron. Fundada em 2007 na capital Estocolmo, a banda mostrou no seu debut de 2011 que o Entombed continuava fazendo a cabeça dos metalheads locais. Está tudo ali: os riffs sujos, as letras repugnantes, as passagens cadenciadas. Apenas a última faixa de "Sleepers In The Rift" difere um pouco das outras pelos momentos arrastados e atmosféricos. Mas o tempo passou e transformou um grupo nada mais que mediano num verdadeiro monstro. 

A guinada na carreira do jovem quarteto veio quando eles assinaram com a renomada Century Media. "A Saunter Through The Shroud", o primeiro EP na nova gravadora, já denuncia a busca por novos ares. A sonoridade do registro é muito mais equilibrada e estruturada e serviu de aperitivo para um dos álbuns mais memoráveis do ano: o espetacular "Sweven".

Não há forma mais eficaz de esterilizar uma manifestação artística que a rotulando. E aí está o maior trunfo do novo disco do Morbus Chron, lançado em fevereiro: são tantas nuances distintas que fica difícil rotular. Esses caras transcenderam as fronteiras do death metal e conceberam algo infinitamente mais interessante e digno de atenção. É metal, mas resumir "Sweven" apenas com esse termo é uma injustiça tremenda.

Os primeiros momentos do registro já mostram o porquê. Berceuse é um instrumental suave e sombrio ao mesmo tempo, recheado com uma psicodelia que faz toda a diferença. E, sem indicação sequer, somos transportados para a próxima faixa, Chains, onde o clima sombrio persiste e a quantidade de bons riffs aumenta consideravelmente. Fica claro que o instrumental em si é muito mais destacado em comparação aos vocais rasgados, impressão constante ao longo dos 53 minutos. 

A partir daí a viagem ganha contornos cada vez mais incríveis. Há a contemporaneidade em equilíbrio com a tradição na destruidora Towards a dark sky, as passagens quase doom metal na alucinante Aurora in the offing, o belíssimo solo de guitarra de Ripening life, o clima épico da absurda The perennial link, enfim. As dez músicas são igualmente destacáveis e não podem ser dissociadas umas das outras visto que no próprio "Sweven" elas são interligadas por meio de curtas passagens instrumentais. Só na melódica Terminus essa verdadeira jornada se encerra, em fade out, deixando no ar o que virá em seguida.

E é inevitável não criar expectativas sobre o próximo passo do Morbus Chron. Por ora, "Sweven" se conserva no topo, arrebatador e desafiador em sua atmosfera peculiar. Resta esperar por uma nova obra desses suecos muitíssimo promissores; e que essa obra também seja desafiadora.

Ouça a obra de arte aqui.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Ataxia, o supergrupo de duas semanas


A segunda saída de John Frusciante do Red Hot Chili Peppers, quase vinte anos após a primeira, não foi algo inesperado. Desde 1998, quando o guitarrista retornou ao grupo, a rotina de trabalho era intensiva e a exaustão tomou conta de todos os membros. Por isso, aproveitando o hiato indefinido dos Peppers que se instalou em 2008, Frusciante abandonou o barco e tornou a se concentrar integralmente em sua carreira solo. E não demonstrou sinais de querer retomar o posto desde então.

A carreira solo, contudo, nunca foi deixada em segundo plano, mesmo durante o tempo em que ele gravava e excursionava com seu projeto mais famoso. Seu primeiro disco data de 1994 e até o momento o cara mostrou uma produtividade notável levando em conta os diversos compromissos do RHCP, inclusive produzindo e gravando com outros artistas. Isso foi determinante para que uma base fiel de fãs fosse conquistada e ele se tornasse um nome de respeito nos circuitos alternativos, além de, é claro, ter mostrado sua capacidade criativa fora de um nome ilustre.

Criatividade, aliás, foi a palavra de ordem para John em 2004. Enquanto fazia uma turnê promovendo "By The Way" ao lado de Anthony Kiedis e companhia, ele foi capaz de lançar nada menos que sete álbuns, dos quais seis foram registrados em um período de seis meses. E isso não foi o bastante para a inventividade do novaiorquino: ao lado do baixista Joe Lally (Fugazi) e do atual guitarrista do RHCP, Josh Klinghoffer, que cuidou da bateria e dos sintetizadores, ele montou uma espécie de supergrupo do rock alternativo que durou duas semanas em estúdio e dois shows ao vivo; e era essa a idéia.


O trio se conhecia de outros carnavais. John sempre foi um frequente espectador dos shows do Fugazi, bem como seu companheiro de banda Flea. De acordo com Joe Lally, ele e Frusciante passaram a se comunicar mais quando o baixista se mudou para Los Angeles. A afinidade musical dos dois era grande, logo, não foi tão surpreendente para Lally ser convidado a fazer um show com o ex-RHCP e Josh Klinghoffer. Mas a idéia só tomou forma a partir do momento em que os três entraram em estúdio e... simplesmente tocaram.

Ataxia é uma deficiência neurológica que prejudica a coordenação dos músculos e afeta o equilíbrio do paciente. Ao batizar o breve projeto com esse nome, fica claro o que a banda queria: resumir a atmosfera desconfortável de seu som em uma palavra. A sonoridade, no entanto, não foi predeterminada. Eles apenas se enfurnavam no estúdio e, sob o comando do baixo de Joe, improvisavam até que algo de interessante saísse dali. A fórmula deu certo.

Foram duas semanas de gravação e dez músicas registradas, divididas entre "Automatic Writing" (2004) e "AW II" (2007). São discos uniformes, marcados por riffs estridentes, letras abstratas e baixo monótono, sempre o fio condutor de cada faixa. A grande duração das músicas reflete a tamanha improvisação e ressalta o clima experimental e opressor. Quando dei play em Dust, abertura do álbum de 2004, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a sufocante obra-prima do P.I.L, "Metal Box".

Falando em influências, há momentos que remetem ao Fugazi (The sides, do primeiro, e Union, do segundo) por conta dos ótimos riffs de Frusciante. Outras passagens, principalmente as de "AW II", são menores e mais acessíveis. Mas o Ataxia em sua melhor forma está nas músicas que ultrapassam os seis minutos, recheadas de vocais nada técnicos e bateria frenética. É essa a marca registrada desse interessante projeto paralelo.


A banda se desmantelou logo depois de finalizar as gravações. Frusciante continuou (e continua) registrando mais e mais material, Lally embarcou numa carreira solo e Klinghoffer se dedicou a empreitadas ao lado de Frusciante ou sozinho até substituí-lo no RHCP em 2008. O Ataxia merece atenção por ser um encontro extremamente curioso entre três instrumentistas sinceros, fazendo música só pelo prazer de fazer música. Um verso quase declamado por Lally em Montreal, a última de "Automatic Writing", sintetiza bem essa sinceridade:

I won't do what they tell me
No, I'll stay just the same...


Post dedicado ao Vinicius, parceiro de algum tempo que me apresentou a essa maravilha e é o maior fã de John Frusciante que já vi. É noise!

domingo, 10 de agosto de 2014

Essas pessoas na sala de jantar...


Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer...

Esses enigmáticos versos abrem o primeiro álbum dos Mutantes, um dos nomes mais importantes da nossa música. O ar psicodélico e experimental de Panis et circenses, incrementado pelos arranjos de sopro do maestro Rogério Duprat e por efeitos sonoros peculiares, logo denuncia: estamos diante de algo sem precedentes na história da música brasileira.

Os Mutantes são um exemplo gritante de que o complexo de vira-lata é absurdo, mas, ainda assim, sua notoriedade é muito maior lá fora do que aqui. Apreciada por gente como o finado Kurt Cobain e Sean Ono Lennon, filho de John Lennon, a banda virou o status quo da MPB às avessas no final dos anos 60 com sua mistura vanguardista entre os ritmos brasileiros e as tendências do exterior. E seu legado permanece atemporal.

Eles apareceram em público pela primeira vez no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von da TV Record, em 1966. O trio Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee encantou tanto com seu carisma e bom humor que logo foi contratado como atração fixa. Arnaldo e Sérgio, apesar dos sobrenomes diferentes, eram irmãos criados num ambiente regado a muita música: a mãe dos rapazes era uma grande pianista. Tal criação parece ter despertado em ambos um talento nato para a música, e Sérgio teve sua primeira banda aos 16 anos, o Wooden Faces.

Rita Lee Jones Carvalho, filha de imigrante norte-americano e de descendente de italianos, teve aulas de piano clássico e estudou em colégio francês. Mas foi no rock'n'roll de Elvis, Beatles e Rolling Stones e na bossa nova de João Gilberto que ela se encontrou e, em 63, integra seu primeiro grupo: as Teenage Singers. Foi questão de tempo para que os dois projetos se conhecessem e, já com Arnaldo no baixo, estava formado o O'Seis.


Um compacto depois, a banda se desmantelou, restando apenas o trio Arnaldo-Sérgio-Rita. O ponto de partida para o sucesso veio quando os adolescentes conheceram Ronnie Von, o responsável pela escolha do nome: na época, o chamado príncipe da Jovem Guarda estava lendo O império dos mutantes. Eles atuaram no programa do cantor até 1967 e logo em seguida entraram em contato com Gilberto Gil e todos os representantes do Tropicalismo, movimento que visava quebrar os padrões estéticos e musicais da MPB. Gil ficou encantado com o talento dos três (que sequer sabiam ler partituras) e convocou os novatos para acompanhá-lo no III Festival da Record.

A execução de Domingo no parque ao lado de Gil deixou parte da plateia escandalizada por conta da guitarra distorcida de Sérgio, mas chamou a atenção da Polydor e não tardou para Os Mutantes assinarem contrato. Antes de entrar em estúdio, eles gravam um disco com Gilberto Gil e um com Caetano Veloso, o que reforça ainda mais sua associação com a polêmica Tropicália. Mas o álbum solo deixou claro que aquelas caras novas eram muito mais que mera banda de apoio.


O disco de estreia, produzido por Manuel Bareinbein e Rogério Duprat, transpira talento, experimentalismo e inovação por todos os poros. A abertura, citada no início desse texto, já impressiona pelo ritmo inconstante e pela originalidade. A minha menina, a segunda faixa, é um samba rock com Jorge Ben nos violões e é o atestado maior de todo o bom humor do grupo. Imagine-se ouvindo isso em tempos onde ou se era um intelectual apreciador da MPB formal ou se era um adolescente ouvinte da Jovem Guarda.

A característica mais notável de "Os Mutantes" é a tamanha versatilidade de três instrumentistas que não chegavam aos 16 anos. Eles se arriscam a desconstruir o baião (Adeus, Maria Fulô), homenageiam os standards do jazz (Senhor F), partem em viagens etéreas (O relógio e Le premier bonheur du jour) e se aproximam dos Beatles com muita personalidade (Trem fantasma). Tudo isso com tanta simplicidade que parece que não passam de três amigos brincando de fazer música na garagem de casa.

Outros momentos notáveis são Baby, composta por Caetano, a clássica Bat macumba, da dupla Caetano/Gil, e o encerramento instrumental Ave Gengis Khan. Nessas passagens, aliás, o estilo de Sérgio é um destaque inevitável: sua guitarra rascante fazendo o papel do violão, junto com o teclado e o baixo de seu irmão, é algo simplesmente incendiário. A competência de Arnaldo ficaria muito mais latente nos lançamentos posteriores dos Mutantes, mas aqui ele já se mostra muitíssimo eficiente. E Rita não fica atrás, sendo uma boa intérprete e uma flautista e tanto.
Depois do primeiro álbum, Os Mutantes não param mais: gravam com Rogério Duprat, participam do "disco-manifesto" "Tropicália ou Panis Et Circenses" e dão as caras em outros tantos festivais de música, sempre impressionando quem quer que fosse, para o bem ou para o mal. Era uma história recheada de genialidade começando, o início da trajetória de um dos grupos essenciais (talvez o mais essencial) do rock e da música brasileira. Não seria exagero dizer que se pode dividir o rock'n'roll brazuca entre pré-Mutantes e pós-Mutantes. Ouça a obra-prima de 1968 e comprove por si mesmo.

Bat macumba ê
Bat macumba ôbá...