O
sucesso é um fenômeno perigoso. Vem sem aviso, abala as estruturas dos
envolvidos e pode ir embora tão ou mais rápido quanto chegou. Na virada de 1990
para 1991, o Fugazi experimentou deste: a turnê de promoção de Repeater, uma
das estreias mais estrondosas da história da música, arrebanhou um séquito
monumental de fãs e não demorou a chamar a atenção dos engravatados.
Contrariando as expectativas o quarteto de Washington, DC manteve-se firme em
suas convicções e preferiu seguir na Dischord, que, apesar de pequena, era
território seguro e livre de cobranças mercadológicas.
Ainda
assim, havia toda uma espera muda e ansiosa no habitat natural dos rapazes. O
que estava por vir? superaria o aclamado debut? Em julho de 1991 a curiosidade
pode ser sanada na forma de Steady Diet of Nothing, um disco de nome estranho e
capa simples.
Se
a arte de Repeater ostentava o nome em letras garrafais, a de Steady Diet
sequer o fazia na parte da frente, que contava apenas com uma imagem simples e
um “Fugazi” no canto superior esquerdo. Julgar um livro pela capa não costuma
ser correto, mas nesse caso faz todo sentido. Basta dar play em “Exit Only”:
cacofonia despretensiosa abrindo alas para riffs simples, bateria cadenciada e
letra abstrata.
Suceder
um trabalho prestigiado é sempre tarefa árdua, e, no caso do Fugazi, foi
dificultada pela ausência de Ted Niceley, o produtor de Repeater. Ou seja, os
caras acabaram tendo que se virar com o pouco conhecimento que tinham do
assunto. Segundo Ian MacKaye, a mixagem foi especialmente complicada. Ninguém
queria afetar a performance do colega, assim, Steady Diet acabou sendo mixado,
em suas próprias palavras, “democraticamente”. Portanto, não há nada da
sonoridade grandiosa do debut.
Em
vez disso, a banda enveredou por caminhos mais minimalistas, com a dupla Joe
Lally (baixo) e Brendan Canty (bateria) se destacando muito mais que os riffs
esparsos de MacKaye e Guy Picciotto. Talvez por isso Steady Diet se tornou um
disco subestimado tanto pelos críticos quanto pelo próprio Fugazi. Mas eu digo
que ambos os lados foram injustos. Afinal, um disco com a paulada visceral de
“Reclamation”, o groove torto de “Stacks”, a bateria insana de “Latin Roots”, a
beleza de “Long Division”, a dissonância de “Dear Justice Letter”, a tensão de
“KYEO”, enfim, não pode ser desconsiderado. Essa capa desbotada esconde um
álbum violento, catártico, desesperado e engajado. E, por isso – e também por
ter sido meu primeiro disco de vinil lacrado –, tão bom ou até superior a
Repeater.
Para
terminar, a oportuna letra de “Reclamation”, uma das melhores músicas que já
ouvi:
Influenciados
pelo movimento pós-punk, Franz Ferdinand (2004) misturou riffs a lá Joy
Division e Gang of Four a batidas dançantes, criando uma espécie de dance-punk
e se tornando discografia essencial dos anos 2000
Desde a primeira música até a última, é bem nítido que o Franz Ferdinand estreou com um álbum
muito influenciado no pós-punk de bandas como Joy Division e Gang of Four. Os
riffs de guitarra, do inicio ao fim, lembram muito aqueles já consagrados por essas
bandas, o que dá uma atmosfera bem pós-punk ao disco, soando como uma espécie de “pós-punk
revival” nos anos 2000. No entanto, o Franz Ferdinand, em sua estréia, alia
esse gosto por Joy Division e Gang of Four a um apreço por funk e (até) disco
music, criando uma textura dançante com riffs simples, densos e explosivos ao mesmo
tempo.
Assim, Franz
Ferdinand, o álbum homônimo de estréia, é um peça interessante do indie rock
dos anos 2000 e com certeza - junto com o Is This It do Strokes - um dos discos
mais emblemáticos dessa geração indie dos anos 2000 que perdura até hoje com força
e através também de outros representantes de peso - como o bem sucedido Arctic
Monkeys , o simpático The Killers e o pós-britpop Kaiser Chiefs.
Puxado pelo sucesso estrondoso da música “Take me out” e
de seu vídeo, inspirado em obras dadaístas e em propaganda soviética, o disco
era (e ainda é) muito mais do que esse grande hit que talvez seja o maior da
banda. Sem dúvida, o apelo pop e dançante dela é o mais forte do album, mas não
é o único. “The Dark of the Matineé” é igualmente genial e brilhante ao misturar a
delicadeza dos versos iniciais – “take your white finger/ slide your nail
under/ The top and bottom buttons of my blazer” – a uma introdução
explosiva e a um refrão contagiante e dançante
– “Find me and follow me /Through corridors, refectories ...” - criando um
verdadeiro “dance-punk” com o groovie de bateria misturado ao peso
minimalístico do riff principal das guitarras. “Tell Her Tonight” é bem
dancante, além de ser um triunfo pop muito potente com um riff funky e uma
letra muito bem-humorada. A desesperada “Auf
Achse” e a esperta “40” são também uma mostra do “dance-punk” do disco de estréia
do Franz Ferdinand, sempre misturando a simplicidade das guitarras a baixo e bateria
que nos fazem dançar inconscientemente. “Cheating on You” é um pouco menos groovie
do que as anteriores, mas é uma prova da influência que as bandas pós-punks
exercem sobre a banda escocesa, sua sonoridade e seu riff de baixo dissonante são
similares a das músicas do clássico Entertainment (1979) do Gang of Four.
Todavia,
com certeza a música que mais demonstra a influencia do movimento pós-punk no
som do Franz Ferdinand é um dos singles e uma das músicas de maior importância no
álbum e na carreira dos escoceses, “This Fire”. O riff inicial poderia ter sido
facilmente lançado por Andy Gill & Cia. nos anos 80 e a linha de baixo
sempre nos tempos ímpares – no 1 e no 3 no compasso 4/4 – dá um ar experimental
e pop ao mesmo tempo. Outro ponto decisivo para a importância dessa música é a urgência
com que Alex Kapranos interpreta a letra
destrutiva da canção.
Somado a tudo isso, há ainda as outras duas músicas mais
pop do disco homônimo: “Darts of Pleasure” e “Jacqueline”. A primeira foi o
single inicial lançado pela banda - sendo lançado até antes do próprio álbum - e é
uma música bem irreverente com parte da letra cantada em alemão – “Ich
heisse Superphantastisch/Ich trinke Schampus und Lachsfisch”. A segunda é importantíssima
para a banda, visto que é uma daquelas canções que não podem faltar (e quase
sempre está) no repertório ao vivo do Franz Ferdinand.
Ainda que o álbum seguinte, o impressionante “You Could
Have it so much Better”, fosse superior musicalmente ao disco de estréia ( e se
tornaria o melhor disco da banda não sendo superado por nenhum outro ao meu
ver), ele não teria a importância e a força pop e fácil de Franz Ferdinand. O disco de estréia do quarteto de Glasgow é uma saudação
de boas vindas poderosíssima a era do indie rock, um retrato essencial pra quem quer entender
e conhecer o movimento das bandas indies dos anos 2000.
Depois
de mais de uma década sem lançar álbuns de estúdio, o Blur se sai muitíssimo
bem numa mescla entre experimentalismo e sua sonoridade clássica dos anos 90.
The
Magic Whip é um dos grandes álbuns desse ano. Sem dúvida, não poderíamos deixar
que 2015 passasse em branco sem ao menos comentar sobre esse grande lançamento
de um dos grupos do Britpop mais bem-sucedidos. Mas, o caminho até esse lançamento foi muito longo e cheio de desvios.
Após o lançamento
de Think Tank, em 2003, o Blur – que
já estava desfalcado pelo guitarrista original, Graham Coxon – se separou. Em
2009, a banda se reuniu de novo para ser a headliner de uma das noites do britanicamente
tradicional Glastonbury Festival – agora novamente com sua formação original,
com Coxon retornando como guitarrista à banda. Desde então, o quarteto de Essex
não se separou novamente, mas apenas vinha lançando algumas músicas inéditas (através
de singles normalmente), discos ao vivo, coletâneas e fazendo shows mundo afora. Teríamos
que esperar mais alguns anos após o retorno da banda para termos o gostinho
fresco de um álbum novo de estúdio.
Em
2013, depois do cancelamento do Tokyo Rocks Music Festival, no Japão, a banda
se viu com alguns dias extras em Hong Kong e, como forma de se distrair,
começaram a gravar novo material. Apesar do vocalista/letrista do Blur, Damon
Albarn ter afirmado em Julho de 2014 de que o material trabalhado em Hong Kong
seria “um daqueles discos que nunca seriam lançados”, Coxon mais Dave Rowntree
e Alex James (baterista e baixista originais do Blur, respectivamente), junto
do produtor Stephen Street (produtor dos discos clássicos do Blur dos anos 90,
como Parklife, Great Escape e Modern Life is Rubbish), começaram a moldar o que
viria ser The Magic Whip no final de 2014. Com os instrumentais prontos, Coxon
apresentou as musicas reformadas à Albarn, que voltou a Hong Kong em Dezembro
para ter inspiração para escrever as letras. Em Janeiro de 2015, os vocais
estavam prontos e, em Fevereiro, a masterização também foi concluída.
Em
Abril de 2015, chegava às lojas físicas e online The Magic Whip, com uma capa exoticamente elegante, bela e simples, que homenageia a cidade que serviu de apoio para a concepção do album, Hong Kong.
O material musical do disco, se comparado a capa, também não deixa a desejar.
Do começo ao fim, o disco é feito de acertos, ou seja, 12 faixas equivalentes a
12 acertos. Primeiramente, porque o disco é completo, misturando o
experimentalismo instrumental de 13 e
Think Tank à genialidade pop da era Britpop de Parklife. Exemplos disso são a curiosa
“Ice Cream Man”, a belíssima “New World Towers” e a jazzística “Ghost Ship”,
cujo um dos versos dá nome ao álbum. Em segundo lugar, a grandeza do disco se
reflete também nos seus hits, os quais tem uma sonoridade tão peculiar do Blur dos
anos 90 que poderiam estar em qualquer disco da era Britpop: a poderosa “Go
Out”, cujo refrão pegajoso “to the lo-o-o-o-cal” gruda na cabeça facilmente, é
um claro exemplo do resgate da sonoridade do britpop clássico do Blur; a
primeira faixa do disco, “Lonesome Street”, que abre o album com um apelo pop
genialmente construído sobre uma base instrumental sólida, sem “firulas”, com
guitarra, baixo e bateria fazendo o simples e completo simultaneamente,
relembra faixas memoráveis de Parklife como “Tracy Jacks” e “London Loves”. Todavia, o maior apelo pop do album fica
por conta de “Ong Ong”, um pop de arena, cujo refrão “I wanna be with you” será
facilmente cantado por milhares de pessoas ao mesmo tempo nos shows do Blur.
Essas três ultimas músicas citadas, inclusive, são os maiores acertos de The Magic Whip , sendo assim, os pontos
altos do disco,unindo qualidade
musical e poética a qualidade comercial.
O resto do disco também não é material
descartável, e sim um deleite aos apreciadores da banda e também àqueles que
estão sendo iniciados ao som do grupo inglês de Essex. A volta do Blur ao
estúdio tem que ser muito comemorada devido à qualidade e integridade do
material lançado. A NME certamente fez muito bem em colocar The Magic Whip em 15° nos melhores
álbuns de 2015, afinal, esse foi realmente um dos melhores – talvez até o
melhor – lançamento de 2015.
Aproveitando que o Pearl Jam desembarca essa semana no Brasil para cinco
shows (dia 11 em Porto Alegre, dia 14 em São Paulo, 17 em Brasília, 20 em Belo
Horizonte e encerrando no Rio de Janeiro no dia 22) promovendo seu mais recente
disco, Lightning Bolt, lançado em
2013, fiz esta matéria especial passando a limpo a discografia do grupo. Para
isso escolhi aquela que julgo ser a canção mais representativa de cada disco.
Menções honrosas inclusas!
“Black” – Ten,
1991
Qualquer desavisado que for ouvir o disco de estreia do
Pearl Jam sem saber do que se trata, provavelmente irá confundí-lo com uma
coletânea de sucessos, tamanho o número de hits contidos ao longo de suas 11
faixas. E neste caso, foi impossível fugir do óbvio quando estamos falando de
uma das mais belas canções de todos os tempos, que é “Black”. A enigmática
letra escrita por Eddie Vedder, exclamada em uma performance impecável –
principalmente na versão acústica gravada para a MTV – se tornou um hino da
juventude dos anos 1990. Ouça também: “Oceans”,
“Porch”, “Once” e “Alive”.
“Go” - Vs.,
1993
Uma verdadeira pancada que abre Vs.,
segundo disco lançado pelo Pearl Jam em 1993. O riff, tocado inicialmente no
baixo e “engrossado” logo em seguida pelas guitarras de Stone Gossard e Mike
McCready, é um dos mais pesados de todo o cardápio da banda, com um clima
bastante escuro e até mesmo oriental (provavelmente uma influência stoniana de “Paint It Black”). É
seguramente a abertura de disco mais impactante já feita pelo Pearl Jam, que
aliás é especialista em fazer grandes aberturas de álbuns (alô, Stones
novamente). Ouça também: “Elderly Woman Behind
The Counter In A Small Town”, “Rearviewmirror”, “Daughter” e “Animal”.
“Spin The Black Circle” – Vitalogy, 1994
Confesso que foi extremamente difícil escolher apenas uma música deste
que considero o melhor disco desta trinca inicial. Ao assumir o controle
criativo, Eddie Vedder não poupou experiementalismos, tornando Vitalogy um álbum bastante
diversificado. Fiquemos aqui com “Spin The Black Circle”, segunda faixa e
provavelmente a mais punk já feita
pela banda (ao lado de “Lukin”, é claro). Possui uma interessante letra
pró-vinil (inclusive no encarte do CD está escrito “CD: Bad Acid ” ao lado da
letra - risos). Ouça também: “Last Exit”,
“Corduroy”, “Better Man” e “Not For You”.
“In My Tree” – No Code, 1996
Se Vitalogy já
causou um certo estranhamento entre os fãs mais ortodoxos, No Code foi o auge. Longe dos holofotes, o disco ficou mais
restrito àqueles que se dedicavam a ouvir a fundo a discografia da banda. Porém,
ao meu ver, é um disco essencial e extremamente maduro, tendo em vista que de
meados dos anos 1990 em diante o rock mainstream
foi ficando cada vez mais diluído e mastigado. Incluisive, para quem acompanha
o trabalho da banda ao vivo, várias canções de No Code são presença obrigatória nos set-lists. “In My Tree” é uma das músicas que eu tenho maior
carinho de toda a carreira do Pearl Jam, meio surf, meio psicodélica, meio
Eddie Vedder – risos. Ouça
também: “Sometimes”, “Hail,
Hail”, “Red Mosquito” e “Present Tense”.
“Do The Evolution” – Yield,
1998
Aqui não teve jeito. “Do The Evolution” é sem dúvida
alguma minha canção favorita, não só de Yield,
mas do catálogo inteiro do Pearl Jam. O clima “garageiro” combinado com uma
produção crua encaixa perfeitamente com
a espetacular letra urrada por Vedder, vide os ácidos versos: "I can kill 'cause in God I trust, yeah/It's evolution, baby". Além disso, conta com um clipe
sensacional, claramente influenciado pelo trabado de Gerald Scarfe no filme The Wall. Yield marca uma volta às origens, com a banda voltando a trabalhar
em conjunto na composição das canções e traz uma sonoridade mais roqueira. É o
disco predileto deste que vos fala. Ouça
também: “Brain Of J.”, “MFC”, “Faithful” e “No Way”.
“Light Years” – Binaural,
2000
Binaural é
uma incógnita. Primeiro disco desde de Ten
que não alcança o topo das paradas. Realmente, muito estranho, tendo em vista o
grande sucesso que foi Yield. Até
hoje o disco é praticamente esquecido entre até os mais radicais fãs.
Provavelmente seja pela falta de hits
potenciais, pois o álbum como um todo é bastante interessante, lembrando No Code em alguns momentos. O destaque
fica por conta da belíssima “Light Years”, com um clima setentista maravilhoso.
Claramente uma das mais lindas canções já feita pelo Pearl Jam. Ouça
também: “God’s Dice”, “Nothing
As It Seems”, “Soon Forget” e “Evacuation”.
“Love Boat Captain” – Riot Act, 2002
Uma das mais belas letras já escritas por Eddie Vedder, “Love
Boat Captain” machuca. Ainda mais sabendo que seus versos "Lost nine friends we'll never know/Two years ago today" se referem a um acidente durante um show
em Roskilde, que matou nove fãs. Extreamente existencialista, assim como todo o
Riot Act, a canção se enqudra perfeitamente
no contexto de perda, que permeia todo álbum. Além de contar com a melhor capa
feita pela banda, Riot Act é dedicado
à Dee Dee Ramone, John Entwistle e Ray Brown, todos baixistas falecidos em
2002. Ouça também: “Can’t Keep”, “Bu$hleaguer”, “Save You” e “Thumbing My
Way”.
“Life Wasted” – Pearl Jam, 2006
Após um hiato relativamente longo, o sol volta a brilhar para o quinteto
de Seattle. O auto-intitulado é um sopro de vida, energia e despretensão – vide
a magnífica e complexa capa. É de longe o álbum mais Rolling Stones feito pelo
Pearl Jam, e dá início ao que eu chamo de “trilogia ensolarada” (até o fim do
texto você entenderá o sentido desta expressão). A canção eleita como destaque
é a stoniana
“Life Wasted”, faixa de abertura que relembra os tempos em que o Pearl Jam
costumava iniciar seus discos no volume máximo. Ouça também: “World Wide Suicide”, “Comatose”, “Parachutes” e
“Marker In The Sand”.
“Got Some” – Backspacer, 2009
Parece que a formula do disco anterior deu certo, e o Pearl Jam voltou
em 2009 com mais um excelente álbum, ainda mais alto astral e mais focado.
Nenhuma grande inovação, mas com tudo em seu devido lugar e com direito até a
um grande hit, a balada “Just Breathe”.
Porém o destaque fica a cargo de “Got Some”, com sua vibe completamente californiana. Ouça também: “The Fixer”, “Just Breathe”, “Johnny Guitar” e “Gonna
See My Friend”.
“Let The Records Play”
– Lightning Bolt, 2013
Finalmente chegamos ao último disco até o momento, o grande responsável
pela atual turnê, Lightning Bolt.
Terceiro da minha “trilogia”, o disco fez um sucesso estrondoso, com o hit baladesco “Sirens”. A música
inclusive fez muito sucesso aqui em Terra
Brasilis, tocando exaustivamente em diversos meios. Boa canção, mas passa
longe das grandes faixas mais introspectivas do Pearl Jam. “Let The Records
Play” é o grande destaque, um blues
neilyoungano com uma letra próxima de “Spin The Black Circle”. Ouça também: "Getaway", "Mind Your Manners", "Pendulum" e "Lightning Bolt".
Em 1999, Stephen Chbosky estreou na
literatura com “The perks of being a wallflower”, um romance epistolar sobre o
começo da adolescência e tudo o que vem junto dela. O sucesso foi estrondoso.
Em 2012, o livro foi adaptado para o cinema com roteiro escrito pelo próprio
Chbosky e astros juvenis como Logan Lerman (Percy Jackson), Emma Watson (Harry
Potter) e Ezra Miller (We need to talk about Kevin) no elenco.
Em 2012, eu estava no último ano do Ensino
Fundamental. Quando fiquei sabendo da mais nova febre entre meus colegas de classe,
não pude ser mais cético. Um filme com a Hermione e o Percy Jackson chamado “As
vantagens de ser invisível”? Perda de tempo.
Em 2014, eu estava no segundo ano do Ensino
Médio, vivendo os conflitos – interiores e exteriores – diários e extremamente
desgastado por isso. Foi aí que o livro chegou às minhas mãos. Li, ainda que um
pouco receoso, e foi uma experiência inexplicável. Depois disso assisti ao
filme por 4 ou 5 vezes.
Não subestime o mainstream.
“As vantagens de ser invisível” livro tem
como protagonista Charlie, um adolescente solitário (daí o “wallflower”) com um
histórico de problemas psicológicos às vésperas de ingressar no Ensino Médio.
Sua jornada torna-se mais prazerosa quando ele conhece Sam e Patrick, dois
veteranos “da ilha dos desajustados”. A partir daí, dá-lhe festas, drogas,
música, brigas e reconciliações. A narrativa de Charlie é cativante por ser um
mergulho profundo na mente de um adolescente lutando para lidar com os
perrengues dessa fase da vida.
“As vantagens de ser invisível” filme tem
uma relação interessante com o romance. Por Stephen Chbosky estar envolvido em
ambos, inspiração e adaptação complementam-se muito bem. A inspiração é
obviamente superior, mas o filme merece ser visto e revisto pelas passagens que
diferem do romance, e vice-versa.
Um elemento essencial da trama é a música.
A história se passa no início dos anos 1990, logo as mixtapes são uma constante
e o rock alternativo está se apossando do seu trono de direito. Por isso, a
trilha sonora da película é recheada de hinos hipsters (“Teenage Riot” do Sonic
Youth, “Asleep” dos Smiths, “Pearly-dewdrops’ Drops” do Cocteau Twins) e alguns
hits improváveis (“Tugboat” do Galaxie 500, “Low” do Cracker, “Dear God” do
XTC), sem mencionar as incursões por décadas anteriores com “Come On Eileen” do
Dexy’s Midnight Runners e “Heroes” do David Bowie. Uma coletânea digna de
Charlie, sem dúvidas.
Recentemente reli o livro e as emoções
foram as mesmas que senti na primeira leitura. Acredito que todo mundo que já
foi adolescente alguma vez na vida se identificará com a sensibilidade
aflorada, o sentimento de não-pertencimento, o sentimento de pertencer a algo,
a rebeldia, o amor, enfim, a vida de Charlie.
E, nesse momento, seremos infinitos.
Obrigado, Stephen Chbosky, Emma Watson,
Logan Lerman e Ezra Miller. Obrigado a quem me emprestou o livro no segundo
ano, e obrigado à livraria em que pude comprá-lo e relê-lo para reviver uma das
melhores experiências que já vivi. Quanto a quem não leu/assistiu, faça-o. Por
favor.
Final de semestre, vestibular batendo na
porta... Tempo livre é escasso. Logo, não ouvi todos os lançamentos que queria
ter ouvido – como sempre – e muito provavelmente não ouvirei mais nenhum nesse
quase fim de ano.
Mas isso não significa que não pude conferir
o que anda sendo produzido de bom em 2015. Esse ano, a meu ver, foi bem satisfatório.
O objetivo dessa lista é fazer um apanhado do que mais gostei resumido em
músicas, meio que um best of de singles. Não tenho a pretensão de eleger
melhores do ano ou algo do tipo, apenas relembrar e compartilhar o que agradou
meus ouvidos
Obs.: em ordem alfabética.
Black Alien – Rock’n’roll (feat. Edi Rock)
O aguardado retorno de Black Alien ao
estúdio após 11 anos com “Babylon by Gus Vol. II: O Ano do Macaco” foi aquém do
esperado. Trouxe, contudo, algumas pedradas dignas da carreira do rapper
carioca. Rock’n’roll é uma das mais destacáveis do novo trabalho, não só pela
base pesada e letra pertinente, mas também por contar com o veterano Edi Rock,
dos Racionais MCs, dividindo os microfones com Gustavo. O resultado é
destruidor.
Björk – Lionsong
A sempre peculiar Björk compôs “Vulnicura”
como forma de se recuperar da instabilidade emocional que ela viveu após seu
conturbado divórcio. O álbum possui uma sonoridade exótica cheia de nuances e
experimentações, sendo a belíssima Lionsong um perfeito exemplar desses
aspectos. Detalhe para as percussões e os instrumentos de cordas, ambos
elementos frequentes no último disco da islandesa.
Faith No More – Motherfucker
O sensacional show do Faith No More no Rock
in Rio na última sexta-feira me obrigou a conferir o material dos caras.
Comecei por “Sol Invictus”, e a experiência foi satisfatória. Escolhi Motherfucker
por esta já ter se tornado a abertura definitiva das apresentações da turnê
atual da banda e ser uma amostra bem dosada de toda a irreverência e
competência de Mike Patton e companhia. Get the motherfucker on the phone!!!
Ghost – From The Pinnacle To The Pit
Nunca havia dado muita atenção aos suecos
do Ghost; minha remissão foi a melhor possível. “Meliora” foi, sem dúvidas, a
maior surpresa que tive esse ano. Apesar
de não ser a minha favorita do disco – o título vai para Mummy Dust –, From The
Pinnacle To The Pit é um hard rock tão bom que não poderia ser deixado de fora.
Retrô sem ser cópia da cópia, perfeito para ser entoado por estádios inteiros.
Luiza Lian – Escuta Zé
Luiza Lian é uma cantora paulista que
surgiu na cena recentemente com seu disco homônimo. Acompanhada por uma banda
que conta com Martim Bernardes e Guilherme D’Almeida (O Terno), entre outros, sua
notável voz casa perfeitamente com o misto de passado e presente dos elegantes
instrumentais. Escuta Zé, ácida e necessária, é o grande destaque.
Motörhead – Electricity
“Live fast, die young”, bradavam os punks
mais inconsequentes. No caso de Lemmy Kilmister, o lema tem que ser adaptado
para “live fast, die old”. O baixista, vocalista e dono de uma das maiores
instituições do heavy metal mundial foi tão inconsequente quanto seus
contemporâneos de calça rasgada e jaqueta de couro, e agora sofre as consequências.
Mas o gosto pelo barulho não abandonou o inglês no alto dos seus 70 anos,
felizmente. Electricity, faixa de "Bad Magic", é tudo o que o Motörhead sempre
foi: direto, reto e pesado. E sensacional.
Napalm Death – Metaphorically Screw You
À semelhança do Motörhead, seus
conterrâneos do Napalm Death tem uma longevidade invejável e, mais que isso,
uma capacidade impressionante de reinvenção. Se a partir da década de 1990 eles
abraçaram de vez a mescla de death metal com grindcore, no momento vem
incrementando essa fórmula da melhor maneira possível. “Apex Predator – Easy Meat”
prossegue com a barulheira profissional de “Utilitarian” (2012) e tem várias
pérolas da porradaria, sendo Metaphorically Screw You uma das mais memoráveis.
St. Vincent – Teenage Talk
Impossível não mencionar a artista mais
interessante dos últimos tempos. Depois do autointitulado do ano passado, Annie
Clark embarcou em uma turnê extensa, inclusive tocando no Lollapalooza Brasil.
Enquanto o álbum novo não chega, os fãs se contentam com Teenage Talk, uma
balada nostálgica, minimalista e maravilhosa.
Viet Cong – Continental Shelf
Coincidentemente, a última música dessa
lista é a que eu mais ouvi ao longo desses meses. A fórmula é simples: pós-punk
na escola do Joy Division e The Cure. Ou seja, produção cheia de ecos e delays,
bateria tribal e clima sombrio. O Viet Cong estreou esse ano com um dos
trabalhos mais expressivos de 2015 e ainda vai fazer muito barulho por aí. Por
ora, Continental Shelf é uma das minhas músicas favoritas.
A presença do grupo britânico Royal Blood nesta edição do Rock In Rio foi uma surpresa em vários aspectos. O primeiro deles é o anonimato quase unânime em relação à banda por parte da plateia que estava na Cidade do Rock no último dia 19. Este desconhecimento é claramente perceptível, levando-se em consideração que a imensa maioria do público estava lá para ver o Metallica, gigante mundial do metal, com décadas de experiência no show business. Salvo um ou outro fã do estreante grupo, ninguém ali sabia de que se tratava o tal Royal Blood.
Vendo pelo lado de Mike Kerr e Ben Thatcher (os únicos membros da banda), a tarefa de fazer o show nestas condições não era algo simples. Ter que apresentar algo novo aos fãs do Metallica que estavam no Rock In Rio não é fácil. As chances de ocorrer algo parecido com o Ghost, que foi vaiado na edição passada pelos fãs do mesmo Metallica, eram gigantescas. Porém não estamos falando de uma banda qualquer. Estamos falando dos caras do Royal Blood, e estes caras sabiam exatamente o que fazer.
A banda subiu ao palco com uma confiança surpreendente, tendo em vista a possível hostilidade do público e a estreia no festival. A partir daí, o surpreendente desfile sonoro começou. O Royal Blood conta com uma formação até então inédita para uma banda de rock: um duo de baixo e bateria. Mike Kerr usa amplificadores de guitarra e uma tonelada de pedais para extrair um som diferenciado. Apesar de muitas vezes soar como uma guitarra, claramente o que ouvimos é um baixo pesadíssimo capaz de criar riffs, solos, e até mesmo levadas rítmicas típicas de uma guitarra. Além desta inovação, temos ainda o monstruoso baterista Ben Thatcher, descendente direto de nomes como John Bonham e Ian Paice, visto seu estilo cru, pesado e cheio de groove ao tocar bateria. Tudo isso causou uma boa surpresa na plateia, que não acreditava que aquela massa sonora era feita por apenas dois músicos.
Banda de dois: presença de palco impecável
O repertório, apesar de limitado ao seu único disco de estúdio, lançado no ano passado, também foi mais um ponto a favor do Royal Blood. Fazendo um casamento interessante entre Led Zeppelin e Queens Of The Stone Age, canções como "Ten Tonne Skeleton", "Figure It Out" e "Blood Hand" foram um belo e poderoso cartão de visitas para os até então novos ouvintes. Porém a apoteose foi "Out Of The Black", música que encerrou o espetáculo, toda repleta de jams, experimentações com equipamento, mosh do baterista Ben Thatcher e até uma inclusão do riff de "Iron Man", do Black Sabbath (jogada mestra para conquistar o público do metal a esta altura do show).
Após o fim da apresentação, foi possível ouvir o público gritando o nome banda, em um óbvio tom de aprovação. O único erro foi ter escalado o Royal Blood para este dia do festival. O ideal seria o dia 24, no qual dividiriam o palco com o já citado Queens Of The Stone Age e o System Of A Down. Se isto acontecesse, o show seria considerado histórico. Mas apenas pelo fato de terem agradado uma plateia impossível de se agradar, pode-se notar que algo aconteceu. Para o bem.
Setlist:
1 - Come On Over
2 - You Can Be So Cruel
3 - Figure It Out
4 - Better Strangers
5 - Little Monster
6 - Blood Hands
7 - One Trick Pony
8 - Ten Tonne Skeleton
9 - Loose Change
10 - Out Of The Black