sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Ataxia, o supergrupo de duas semanas


A segunda saída de John Frusciante do Red Hot Chili Peppers, quase vinte anos após a primeira, não foi algo inesperado. Desde 1998, quando o guitarrista retornou ao grupo, a rotina de trabalho era intensiva e a exaustão tomou conta de todos os membros. Por isso, aproveitando o hiato indefinido dos Peppers que se instalou em 2008, Frusciante abandonou o barco e tornou a se concentrar integralmente em sua carreira solo. E não demonstrou sinais de querer retomar o posto desde então.

A carreira solo, contudo, nunca foi deixada em segundo plano, mesmo durante o tempo em que ele gravava e excursionava com seu projeto mais famoso. Seu primeiro disco data de 1994 e até o momento o cara mostrou uma produtividade notável levando em conta os diversos compromissos do RHCP, inclusive produzindo e gravando com outros artistas. Isso foi determinante para que uma base fiel de fãs fosse conquistada e ele se tornasse um nome de respeito nos circuitos alternativos, além de, é claro, ter mostrado sua capacidade criativa fora de um nome ilustre.

Criatividade, aliás, foi a palavra de ordem para John em 2004. Enquanto fazia uma turnê promovendo "By The Way" ao lado de Anthony Kiedis e companhia, ele foi capaz de lançar nada menos que sete álbuns, dos quais seis foram registrados em um período de seis meses. E isso não foi o bastante para a inventividade do novaiorquino: ao lado do baixista Joe Lally (Fugazi) e do atual guitarrista do RHCP, Josh Klinghoffer, que cuidou da bateria e dos sintetizadores, ele montou uma espécie de supergrupo do rock alternativo que durou duas semanas em estúdio e dois shows ao vivo; e era essa a idéia.


O trio se conhecia de outros carnavais. John sempre foi um frequente espectador dos shows do Fugazi, bem como seu companheiro de banda Flea. De acordo com Joe Lally, ele e Frusciante passaram a se comunicar mais quando o baixista se mudou para Los Angeles. A afinidade musical dos dois era grande, logo, não foi tão surpreendente para Lally ser convidado a fazer um show com o ex-RHCP e Josh Klinghoffer. Mas a idéia só tomou forma a partir do momento em que os três entraram em estúdio e... simplesmente tocaram.

Ataxia é uma deficiência neurológica que prejudica a coordenação dos músculos e afeta o equilíbrio do paciente. Ao batizar o breve projeto com esse nome, fica claro o que a banda queria: resumir a atmosfera desconfortável de seu som em uma palavra. A sonoridade, no entanto, não foi predeterminada. Eles apenas se enfurnavam no estúdio e, sob o comando do baixo de Joe, improvisavam até que algo de interessante saísse dali. A fórmula deu certo.

Foram duas semanas de gravação e dez músicas registradas, divididas entre "Automatic Writing" (2004) e "AW II" (2007). São discos uniformes, marcados por riffs estridentes, letras abstratas e baixo monótono, sempre o fio condutor de cada faixa. A grande duração das músicas reflete a tamanha improvisação e ressalta o clima experimental e opressor. Quando dei play em Dust, abertura do álbum de 2004, a primeira coisa que me veio à cabeça foi a sufocante obra-prima do P.I.L, "Metal Box".

Falando em influências, há momentos que remetem ao Fugazi (The sides, do primeiro, e Union, do segundo) por conta dos ótimos riffs de Frusciante. Outras passagens, principalmente as de "AW II", são menores e mais acessíveis. Mas o Ataxia em sua melhor forma está nas músicas que ultrapassam os seis minutos, recheadas de vocais nada técnicos e bateria frenética. É essa a marca registrada desse interessante projeto paralelo.


A banda se desmantelou logo depois de finalizar as gravações. Frusciante continuou (e continua) registrando mais e mais material, Lally embarcou numa carreira solo e Klinghoffer se dedicou a empreitadas ao lado de Frusciante ou sozinho até substituí-lo no RHCP em 2008. O Ataxia merece atenção por ser um encontro extremamente curioso entre três instrumentistas sinceros, fazendo música só pelo prazer de fazer música. Um verso quase declamado por Lally em Montreal, a última de "Automatic Writing", sintetiza bem essa sinceridade:

I won't do what they tell me
No, I'll stay just the same...


Post dedicado ao Vinicius, parceiro de algum tempo que me apresentou a essa maravilha e é o maior fã de John Frusciante que já vi. É noise!

domingo, 10 de agosto de 2014

Essas pessoas na sala de jantar...


Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer...

Esses enigmáticos versos abrem o primeiro álbum dos Mutantes, um dos nomes mais importantes da nossa música. O ar psicodélico e experimental de Panis et circenses, incrementado pelos arranjos de sopro do maestro Rogério Duprat e por efeitos sonoros peculiares, logo denuncia: estamos diante de algo sem precedentes na história da música brasileira.

Os Mutantes são um exemplo gritante de que o complexo de vira-lata é absurdo, mas, ainda assim, sua notoriedade é muito maior lá fora do que aqui. Apreciada por gente como o finado Kurt Cobain e Sean Ono Lennon, filho de John Lennon, a banda virou o status quo da MPB às avessas no final dos anos 60 com sua mistura vanguardista entre os ritmos brasileiros e as tendências do exterior. E seu legado permanece atemporal.

Eles apareceram em público pela primeira vez no programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von da TV Record, em 1966. O trio Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee encantou tanto com seu carisma e bom humor que logo foi contratado como atração fixa. Arnaldo e Sérgio, apesar dos sobrenomes diferentes, eram irmãos criados num ambiente regado a muita música: a mãe dos rapazes era uma grande pianista. Tal criação parece ter despertado em ambos um talento nato para a música, e Sérgio teve sua primeira banda aos 16 anos, o Wooden Faces.

Rita Lee Jones Carvalho, filha de imigrante norte-americano e de descendente de italianos, teve aulas de piano clássico e estudou em colégio francês. Mas foi no rock'n'roll de Elvis, Beatles e Rolling Stones e na bossa nova de João Gilberto que ela se encontrou e, em 63, integra seu primeiro grupo: as Teenage Singers. Foi questão de tempo para que os dois projetos se conhecessem e, já com Arnaldo no baixo, estava formado o O'Seis.


Um compacto depois, a banda se desmantelou, restando apenas o trio Arnaldo-Sérgio-Rita. O ponto de partida para o sucesso veio quando os adolescentes conheceram Ronnie Von, o responsável pela escolha do nome: na época, o chamado príncipe da Jovem Guarda estava lendo O império dos mutantes. Eles atuaram no programa do cantor até 1967 e logo em seguida entraram em contato com Gilberto Gil e todos os representantes do Tropicalismo, movimento que visava quebrar os padrões estéticos e musicais da MPB. Gil ficou encantado com o talento dos três (que sequer sabiam ler partituras) e convocou os novatos para acompanhá-lo no III Festival da Record.

A execução de Domingo no parque ao lado de Gil deixou parte da plateia escandalizada por conta da guitarra distorcida de Sérgio, mas chamou a atenção da Polydor e não tardou para Os Mutantes assinarem contrato. Antes de entrar em estúdio, eles gravam um disco com Gilberto Gil e um com Caetano Veloso, o que reforça ainda mais sua associação com a polêmica Tropicália. Mas o álbum solo deixou claro que aquelas caras novas eram muito mais que mera banda de apoio.


O disco de estreia, produzido por Manuel Bareinbein e Rogério Duprat, transpira talento, experimentalismo e inovação por todos os poros. A abertura, citada no início desse texto, já impressiona pelo ritmo inconstante e pela originalidade. A minha menina, a segunda faixa, é um samba rock com Jorge Ben nos violões e é o atestado maior de todo o bom humor do grupo. Imagine-se ouvindo isso em tempos onde ou se era um intelectual apreciador da MPB formal ou se era um adolescente ouvinte da Jovem Guarda.

A característica mais notável de "Os Mutantes" é a tamanha versatilidade de três instrumentistas que não chegavam aos 16 anos. Eles se arriscam a desconstruir o baião (Adeus, Maria Fulô), homenageiam os standards do jazz (Senhor F), partem em viagens etéreas (O relógio e Le premier bonheur du jour) e se aproximam dos Beatles com muita personalidade (Trem fantasma). Tudo isso com tanta simplicidade que parece que não passam de três amigos brincando de fazer música na garagem de casa.

Outros momentos notáveis são Baby, composta por Caetano, a clássica Bat macumba, da dupla Caetano/Gil, e o encerramento instrumental Ave Gengis Khan. Nessas passagens, aliás, o estilo de Sérgio é um destaque inevitável: sua guitarra rascante fazendo o papel do violão, junto com o teclado e o baixo de seu irmão, é algo simplesmente incendiário. A competência de Arnaldo ficaria muito mais latente nos lançamentos posteriores dos Mutantes, mas aqui ele já se mostra muitíssimo eficiente. E Rita não fica atrás, sendo uma boa intérprete e uma flautista e tanto.
Depois do primeiro álbum, Os Mutantes não param mais: gravam com Rogério Duprat, participam do "disco-manifesto" "Tropicália ou Panis Et Circenses" e dão as caras em outros tantos festivais de música, sempre impressionando quem quer que fosse, para o bem ou para o mal. Era uma história recheada de genialidade começando, o início da trajetória de um dos grupos essenciais (talvez o mais essencial) do rock e da música brasileira. Não seria exagero dizer que se pode dividir o rock'n'roll brazuca entre pré-Mutantes e pós-Mutantes. Ouça a obra-prima de 1968 e comprove por si mesmo.

Bat macumba ê
Bat macumba ôbá...

quinta-feira, 31 de julho de 2014

I'm living in the eighties: a primeira década do Killing Joke


Sabe aquela banda que influenciou um sem-número de artistas aclamados mas não igualou a fama dos mesmos? 

O Killing Joke é um bom exemplar. Seu impacto se mostrou especial na geração dos anos 90: de Nirvana a Metallica, de Nine Inch Nails a Faith No More, todos foram impelidos pelo Killing Joke a alguma direção, de alguma forma. O próprio grupo capitaneado pelo icônico Jaz Coleman se direciona a novos caminhos constantemente. Tem sido assim por pouco menos de 30 anos.

E essa longa história começa em Londres, 1979, quando Jaz conhece Paul Ferguson. Sendo eles vocalista e baterista, respectivamente, a dupla decide recrutar membros para um projeto que buscava, nas palavras de Coleman, "definir a beleza da era atômica em estilo, som e forma". Logo aparecem Martin "Youth" Glover e Kevin "Geordie" Walker e a formação clássica do Killing Joke se reúne pela primeira vez. O EP "Turn To Red" é a estreia desse line-up e, na época, caiu nas graças do lendário radialista John Peel. John Lydon, já à frente do Public Image Ltd., também manifestou apreço ao pós-punk distinto dos novatos.

A distinção se dava pelo uso dos sintetizadores em conjunção com os riffs distorcidíssimos de Geordie, característica recorrente na carreira do Killing Joke. O pequeno registro traz esse aspecto, mas é uma peça única na discografia do grupo por conter muito do reggae e dub jamaicanos. E apesar da atmosfera amadora, ressaltada pela produção precária, a competência dos envolvidos já é um destaque, especialmente as linhas de baixo de Youth e a performance de Coleman.

Em seu debut propriamente dito, registrado em 1980, o quarteto disseminou as raízes do rock industrial usando e abusando de riffs distorcidos, andamento cadenciado e letras proféticas, quase apocalípticas. O disco possui uma atmosfera muito sombria e é um dos mais cultuados daquela época. Basta ouvir pedradas do nível de Requiem, Wardance e The Wait para constatar o imenso talento dos envolvidos na construção de ambientes pesados. Para mim, a audição do álbum equivale ao campo de batalha, entre trincheiras e desastres atômicos; e acho que era essa a intenção. Um verdadeiro clássico.


Logo a base de fãs do Killing Joke estava se formando, e nisso eles também foram diferenciados: seus shows arrebanhavam tanto fãs do pós-punk quanto do heavy metal. As apresentações, aliás, foram o primeiro passo para a notoriedade da banda. No palco Jaz Coleman maximizava as performances neuróticas e, não por acaso, sua imagem acabou se tornando sinônimo de Killing Joke. Some isso às polêmicas envolvendo o uso de fotografias relacionadas ao Terceiro Reich e temos aí um dos nomes mais bombásticos da década de 1980 (e das posteriores também).

A partir do segundo lançamento, "What's THIS For...!", o baterista Paul Ferguson adotou uma forma de tocar que se manteria em todos os discos até 1985: guiar o andamento de cada música principalmente pelos tons da bateria, tal qual as percussões tribais de algum ritual exótico. É essa característica que dá o tom opressivo e desconfortável do disco, o qual contém algumas das melhores composições da carreira do Killing Joke.

No ano seguinte o grupo decidiu se mudar para a Alemanha a fim de gravar material com o renomado produtor Conny Plank (Kraftwerk, Neu!). O resultado divide opiniões: enquanto uns veem instrumentistas fora de sintonia, outros enxergam em "Revelations" uma obra única do pós-punk oitentista; faço parte da segunda vertente. O fato é que este viria a ser o último momento da formação original até 2010, além de se tratar de uma ponte entre a agressividade selvagem dos primórdios e o consecutivo som mais palatável.

Mais palatável, não totalmente pop. Como ficou claro no excelente "Fire Dances", a estreia do baixista Paul Raven, as doses de melodia aumentaram consideravelmente e Coleman começava a mostrar seu verdadeiro potencial como cantor. No entanto, a lírica obscura e os riffs ruidosos continuavam ali, ao mesmo tempo em que o papel dos sintetizadores crescia. E foi na obra-prima "Night Time" que essa fórmula amadureceu de vez.
Não é por acaso que "Night Time" é o disco mais lembrado quando se fala em Killing Joke. No álbum de 1985 o grupo está no auge, conciliando com propriedade a faceta sombria e as tendências da época e, assim, dando forma a um New Wave muito menos festeiro que de costume. Só há pérolas no setlist, mas uma delas merece nota: a clássica Love Like Blood, o maior hit dos caras e uma pequena obra-prima. Isso sem falar na antológica Eighties, outro grande atestado da influência de Jaz Coleman e companhia. Riff familiar, não é mesmo?



Infelizmente, o brilhantismo não foi repetido com a mesma eficácia depois. "Brighter Than A Thousand Suns", apesar de ter sua qualidade, fica devendo. Quase totalmente guiado pelos sintetizadores, o trabalho não foi unanimidade e traz um dos melhores desempenhos de Jaz, tanto como vocalista quanto como letrista. Mas o aparato tecnológico deixa a guitarra rascante de Geordie em segundo plano, o que só prejudica a audição. Isso se repete no péssimo "Outside The Gate", planejado como um álbum solo do frontman e a primeira grande mancha na carreira dos ingleses. Suas gravações foram tão conturbadas que renderam a saída de Raven e Ferguson e o fim (temporário) do Killing Joke.

Coleman, Geordie e Raven retornariam em 1990 com "Extremities, Dirt & Various Repressed Emotions", uma espécie de volta às raízes mais cruas. Mas isso é história pra outro post. Por enquanto, fique com o massacre sonoro da primeira década do quarteto, certa vez descrito como "o som da Terra vomitando" por Paul Ferguson e essencial para se entender o que veio depois. This is music to march to; do a war dance!

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Século Sinistro: os tempos atuais segundo o Ratos de Porão


As manifestações pelos quatro cantos do Brasil no ano de 2013 mexeram ao menos um pouco com o senso patriótico e crítico de cada cidadão. O tempo passou e, principalmente por causa das polêmicas envolvendo black blocs e afins, as insurreições continuam fazendo barulho. Independentemente de sua eficácia, os protestos foram (e estão sendo) válidos por se tratarem de estímulos à cidadania, valor pouco explorado em nossa sociedade.

Esse cenário caótico acabou servindo também para inspirar os veteranos do Ratos de Porão na concepção de um novo álbum. Sem lançar material inédito desde 2010 (ano em que gravaram um split com os espanhóis do Looking For An Answer), os paulistanos comemoraram três décadas de carreira recentemente e sentiram que era chegada a hora de “Homem Inimigo do Homem” (2006) ganhar um sucessor.

É preciso salientar que o quarteto não está mais na flor da idade. Os ensaios, a partir de um dado momento, foram sendo dificultados tanto pelas obrigações familiares quanto pela localização de cada um: o baterista Boka mora em Santos, enquanto os restantes residem na capital São Paulo. Mesmo assim, os shows não pararam (houve até mesmo uma passagem pela República Tcheca esse ano) e ao que tudo indica o entrosamento não diminuiu um milésimo.

As sessões de gravação aconteceram no Family Mob Studios, em São Paulo, e foram totalmente analógicas. A capa, assinada por Ricardo Tattoo, resume bem a atmosfera do registro e seus principais temas: a alienação promovida pela mídia e pelas redes sociais, o lamentável sistema carcerário brasileiro e a corrupção, já intrínseca à sociedade. Quanto ao som, é evidente que eles conquistaram (mais uma vez) o equilíbrio entre o metal e o hardcore; ou seja, o mais puro crossover.

“Século Sinistro” começa cheirando a clássico: Conflito Violento tem tudo para se tornar presença obrigatória em setlists futuros, ao mesmo tempo em que soa absolutamente contemporânea por conta de sua intro. Neocanibalismo pende para o death metal em algumas passagens e conta com um solo insano de Moyses Kolesne (Krisiun). A competência da dupla Juninho e Boka fica clara na cadenciada Grande Bosta, cuja letra é um retrato sem retoques do povo brasileiro. O maior destaque de Sangue e Bunda vai para os “guturais” de Atum, o porco de estimação de João Gordo, e para os riffs ganchudos de Jão.

Não há muito que falar sobre a faixa-título: hardcore direto e reto do jeito que só o RDP sabe fazer. Jornada Para O Inferno é outro destaque inevitável, assim como o crossover tradicional de Prenúncio de Treta e a metálica Stress Pós-Traumático. A letra de Viciado Digital, por outro lado, é contemporaneidade pura e, de certo modo, triste. Como destaques finais, a versão para Progreria of Power, novamente com a presença de Moyses, e Puta, Viagra e Corrupção, tão boa quanto seu título.

O valor de “Século Sinistro” vai além da potência sonora. Sua temática é indissociável do cenário socioeconômico e político de nosso país, o que também acontece no quarto álbum dos caras, não coincidentemente intitulado “Brasil” (1989). Por isso, “Século Sinistro” é uma adição de respeito à discografia do Ratos; e, para mim, um clássico moderno.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Savages: discípulas do pós-punk oitentista


Quando se fala em post-punk revival, logo me vêm a cabeça nomes como Strokes e Franz Ferdinand, ambas bandas que nunca me inspiraram muito interesse. Apesar de apreciar os grupos que eles se propõem a homenagear, o som não passa de algo divertido - e, quanto ao Strokes, irritante - e legal, digamos assim. Qual foi minha surpresa quando me deparei com as Savages, quatro garotas britânicas que andam causando certo estardalhaço com seu recente álbum, "Silence Yourself". A minha simpatia pelo som foi quase instantânea, por motivos que listarei a seguir. Mas, antes, vamos aos fatos.

A história do quarteto feminino começou no final de 2011, o que caracteriza uma repercussão relativamente rápida. O embrião do projeto nasceu quando a vocalista francesa Jehnny Beth - cujo nome real é Camille Bethomier - e a guitarrista Gemma Thompson se conheceram. Um ano de planos, composições e ideias depois, mais duas instrumentistas se juntaram à dupla. O primeiro show aconteceu em Janeiro do ano passado, e o reconhecimento passou a acontecer quando o primeiro single, Husbands, foi lançado. Segundo o The Guardian, a faixa condensa os melhores momentos do P.I.L, Joy Division, Siouxsie & The Banshees e similares.


E é exatamente isso. É perceptível a influência do P.I.L nos riffs de guitarra que parecem gritos, bem como a do Joy Division - Jehnny Beth lembra o finado Ian Curtis até na aparência. Arriscaria, aliás, a dizer que a banda originalmente batizada como Warsaw é a maior referência para essas garotas. O clima claustrofóbico, o baixo forte, está tudo ali. Tempere isso com uma dose cavalar de energia e temos uma das surpresas do presente ano.

O debut só serviu para consolidar o sucesso das Savages entre o público e a crítica, e rendeu a elas indicações para duas das premiações mais importantes da música inglesa, a BBC Sound of 2013 e a Barclaycard Mercury Prize. Não é para menos: o álbum é uma coleção de canções potentes, energéticas e, sobretudo, criativas. Sim, criativas. Não deixe o "revival" te enganar. Nada aqui é uma cópia descarada do que já foi feito antes, mas uma revisita a isso para originar uma sonoridade direta e reta. Nas próprias palavras do quarteto, "as músicas das Savages visam nos relembrar que os seres humanos não evoluíram tanto, que a música ainda pode ser direta ao ponto, eficiente e excitante". 

Contudo, o bicho pega mesmo é ao vivo. No palco cada composição soa mais convincente e as influências mais barulhentas afloram. Tudo é amplificado para dar forma a uma barreira sonora que alterna entre o viajante e o sônico. Os vocais de Beth, em conjunto com sua presença de palco, são um destaque a parte. Fay Milton, a baterista, também merece nota por espancar as peles com uma vontade que impressiona.


Usando referências predominantemente pós-punk, as Savages conceberam um registro digno de muita atenção. É música feita com garra, competência e um descompromisso que faz toda a diferença. Estávamos precisando disso, afinal.

Baixe aqui.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Hasteando a bandeira preta - parte II

Continuando...

O próximo passo foi recrutar um novo baixista, uma vez que o próprio Ginn assumira o baixo em "My War". Eles chegaram, então, à linda Kira Roessler que, indiscutivelmente, foi a melhor escolha para o posto. Seu estilo de tocar era ao mesmo tempo raivoso e sofisticado, tudo o que Ginn estava a procura. O ânimo era tão grande que, depois da entrada de Kira, a banda apresentaria seu período mais prolífico: foram três lançamentos só em 1984.

Da esquerda para a direita: Greg Ginn, Henry Rollins, Kira Roessler e Bill Stevenson

O álbum mais experimental que o Black Flag já lançou veio depois de "My War". "Family Man" possuía um lado apenas com Rollins e seus spoken-words, e um lado totalmente instrumental. Nem é preciso dizer que os fãs mais antigos não entenderam absolutamente nada, o que foi decisivo para que a obra só fosse apreciada muito tempo depois. Logo em seguida, vem o ótimo "Slip It In", uma continuação mais amadurecida do que eles vinham mostrando até então. As críticas foram muitas, os fãs mais ardorosos chegavam a agredir o frontman Rollins, mas o Black Flag seguia experimentando e ficando ainda mais pesado.

A fúria do público do Black Flag se dava não apenas por causa do direcionamento adotado por eles, mas também pela escassez de velhos clássicos nos setlists, fato comprovado pelo próprio Henry Rollins. Essa atitude se refletiu até mesmo na opinião de alguns críticos, que afirmaram que "Slip It In" cruzava a linha entre o punk e o metal. Mas, ao que tudo indica, isso não foi o bastante para eles, e, em 1985, todos são surpreendidos ainda mais com "Loose Nut", um álbum que pendia para o metal em vários momentos.

Um aspecto memorável de "Loose Nut" é sua produção, a primeira sem a mão de Spot. A polidez não deixa de ser estranha para os moldes da banda, que sempre apostou em um trabalho sujo e orgânico. E, apesar de não ter sido sucesso entre críticos e nem mesmo ser apreciado pela banda, não deixa de ser um bom disco. A queda no padrão de qualidade pode ser explicada pelos constantes conflitos internos, os quais permaneceriam até o fim do Black Flag, em 1986.


Mas, antes disso acontecer, é lançado o EP "The Process of Weeding Out", o auge do experimentalismo avant-garde de Greg Ginn. Rotular o disquinho não é uma tarefa muito fácil, mas eu diria que é algo entre o hardcore/sludge anterior e o free jazz. Diferentemente de "Family Man", não há participação de Henry Rollins, o que torna o álbum ainda mais difícil de digerir. No mínimo, interessante.

A saída de Roessler foi repentina, mas ajudou a conter as tensões por pelo menos um tempo. Stevenson também deixou de integrar o grupo, dando lugar a Anthony Martinez. Contudo, o Black Flag já estava dando os últimos passos para a derrocada. O excesso de turnês, os onipresentes confrontos internos e a dificuldade em manter um público - fato potencializado pela falta de um padrão sonoro - foram determinantes para que um ponto final fosse posto. O último trabalho de estúdio foi "In My Head", propositalmente semelhante a seu antecessor, numa tentativa quase desesperada de situar os fãs.

A última formação

O último show se deu em 27 de junho de 1986, em Detroit. Dois meses depois, o fundador Greg Ginn telefonou a Henry Rollins anunciando a saída de sua própria criação. E ficou claro que reformá-la estava fora de cogitação. Ainda haveria o EP "I Can See You", gravado em 1985 e lançado em 1989. Após isso, Ginn formaria o Gone e embarcaria em uma carreira solo. Henry Rollins permanece como a figura mais publicamente vista, atuando em filmes, lançando discos solo e com a Rollins Band, escrevendo livros e viajando o mundo com sua performance spoken word. 

Recentemente, o nome Black Flag voltou à mídia com a formação do Flag, banda composta por Keith Morris, Dez Cadena, Chuck Dukowski, Bill Stevenson e Stephen Egerton (Descendents). Quase simultaneamente, Ginn anunciou a reforma de seu projeto, ao lado de Ron Reyes e do baterista Dave Klein. No dia 2 de agosto do presente ano, o guitarrista acusou os membros do Flag de infringimento de direitos autorais. O veredicto foi que o Flag poderia continuar usando o icônico logo, uma vez que os fãs poderiam diferenciar as duas bandas. Processos à parte, acredito que o Flag tenha mostrado o melhor serviço até agora.

É isso. Espero que tenham apreciado essa verdadeira viagem pelo mundo do Black Flag e do underground californiano, duas coisas que se confundem facilmente. Peço desculpas se o texto ficou excessivamente grande ou detalhado, é minha primeira tentativa nesse formato e espero melhorar com o tempo. Abraço!

Hasteando a bandeira preta - parte I


Ao mesmo tempo que o punk rock tomava forma em Nova York, uma outra maneira de fazer música raivosa e revolucionária se desenvolvia no litoral californiano. O hardcore punk, como denuncia o nome, tinha origens diretas no punk rock dos Ramones e do Clash, mas seu núcleo era a cidade de Los Angeles e arredores, além de ser muito mais anticomercial e veloz que o gênero originado e popularizado pelos novaiorquinos. E um dos maiores nomes do gênero surgiu já em 1976, inicialmente sob o nome de Panic.

Fundada pelo guitarrista Greg Ginn e o vocalista Keith Morris, a banda tinha uma ética de trabalho muito mais séria do que grande parte de seus contemporâneos. Ginn, com espírito de liderança desde sempre, insistia para que ocorressem ensaios regularmente. A formação era completada pelo baixista Chuck Dukowski, ex-Würm, e pelo baterista Brian Migdol. Raymond Pettibon, irmão de Ginn, chegou a ser baixista por algum tempo, mas abandonou a ideia para se dedicar aos estudos.

O primeiro show do quarteto estabilizado foi no final de 1977, em Redondo Beach. Logo em seguida, tiveram a necessidade de trocar de nome para evitar confusões com outra banda da região; o escolhido foi Black Flag, sugestão de Pettibon. Foi nesse mesmo período que Dez Cadena viu o grupo ao vivo pela primeira vez. Anos depois, ele viria a integrar uma de suas várias formações.

Foto com o insano Keith Morris

A partir desse momento, Pettibon passou a criar vários desenhos para tudo que fosse relacionado à banda do irmão, desde o icônico logo até a capa de álbuns. Outro acontecimento importantíssimo se deu em 1978, ano em que eles deixam registrado o primeiro trabalho oficial do Black Flag: um EP nomeado "Nervous Breakdown".

Sendo a primeira e última gravação com Keith Morris, o vocalista original, o EP composto por apenas quatro faixas é de uma urgência nunca vista antes na época. Desse primitivo registro, saíram os clássicos imortais Nervous Breakdown, Fix Me e Wasted, referência para o mundo do hardcore e para gerações posteriores. Morris sairia um ano depois, alegando não aguentar mais as pirações de Ginn, que, àquela altura, estava totalmente viciado em cocaína. Esse é o fim da primeira fase do Black Flag. 


Enquanto Morris estava trabalhando na formação de uma nova banda - o essencial Circle Jerks -, Ginn tratou de recrutar um novo membro para o microfone. Quem assumiu o posto foi Ron Reyes, um fã. Também havia um novo baterista, o enigmático colombiano Robo, e foi com essa formação que a banda apareceu no lendário documentário de Penelophe Spheeris, "The Decline of Western Civilization". Isso só ajudou a reputação do Black Flag como algo sem precedentes na história do rock'n'roll aumentar. Contudo, as mudanças na formação ainda eram um problema: Reyes foi expulso da banda após abandonar o palco no meio de uma apresentação, e quem o substitui é Dez Cadena, o espectador dos primórdios do Black Flag.

A entrada de Cadena coincidiu com o pico de popularidade dos mesmos: eles embarcaram em uma turnê nacional, vendendo três mil ingressos em uma só noite no Santa Monica Civic Auditorium e conquistando problemas ainda maiores com a polícia, que invadia seus shows regularmente. Não é à toa que eles seriam objeto de ofensa em alguns clássicos posteriores do Black Flag.

Em 1981, chegou a vez de Dez Cadena abandonar o posto de vocalista. Sem um treinamento adequado, ele não suporta a demanda vocal da banda e troca o microfone pela guitarra. Aparece, então, Henry Garfield, vocalista da State of Alert e fã de Ginn e companheiros. Ele ficou conhecido como Henry Rollins tempos depois, e abriu algumas portas para o Black Flag, como ajudá-los na realização de seu primeiro show em Washington, D.C., além de, é claro, ter permanecido nos vocais até o fim da mesma.


Greg Ginn, Chuck Dukowski, Dez Cadena, Robo e o enérgico Henry Rollins a frente

Rollins trouxe uma característica mais séria a banda, que, inicialmente, fazia canções até mesmo descontraídas. Suas habilidades como poeta, no entanto, eram muito mais austeras e ajudaram na posterior mudança sonora do Black Flag. Foi com ele que o processo de lançamento de um full-length propriamente dito começou. 

As sessões de gravação de "Damaged" causaram conflitos entre a banda e o produtor Spot, o qual já havia gravado várias faixas componentes do disco com formações antigas e desaprovava a adição de um novo guitarrista. No entanto, o debut saiu, e mostrou o grupo mais competente do que nunca. Nele já havia o clima sombrio característico dos discos posteriores, com detalhe especial para Thirsty and Miserable, Depression, Damaged 1 e Damaged 2. A gravação, quase totalmente ao vivo, possui uma atmosfera lo-fi que faz toda a diferença; sinceramente, nunca ouvi um disco que soasse como soa "Damaged". Só ouvindo para saber.



Os problemas de verdade começaram quando a MCA, distribuidora do álbum, se recusou a colocá-lo nas prateleiras por ser um disco "anti-parental". Há, também, quem diga que a verdadeira razão para isso é que a subsidiária responsável pela distribuição, Unicorn Records, era tão mal administrada que não tinha fundos para arcar com as despesas. O resultado foi que o Black Flag foi impedido de usar o próprio nome até 1984.

Mas não foi isso que parou as atividades do quinteto. Em 1981, eles realizaram, junto ao Minutemen, sua primeira turnê europeia. Estava tudo indo muito bem quando, em pleno aeroporto, o visto de Robo é negado e ele é impossibilitado de voltar para a Califórnia. O substituto foi o ex-D.O.A Chuck Biscuits, que não permaneceu muito tempo no posto e deu lugar a Bill Stevenson, conhecido por tocar no Descendents. Robo voltaria à ativa em 1983, integrando o Misfits. E a criatividade de sua ex-banda estava alcançando picos inéditos.

O Black Flag não era o mesmo depois da última turnê, explosiva e violenta. Eles passaram a se interessar por coisas além do punk rock, como Grateful Dead e Jimi Hendrix Experience. Isso influiu e muito nas novas composições, registradas numa demo de 1982, extremamente desaceleradas e inconvencionais. Nessa época, Dez Cadena sai e o Black Flag prossegue com apenas uma guitarra. Um ano mais tarde, o demitido é Chuck Dukowski, que se transformou no administrador das turnês da banda.


A banda ao vivo já com Kira Roessler

Em 1983, é posta nas prateleiras a essencial coletânea "Everything Went Black", um apanhado das gravações do Black Flag com Keith Morris, Ron Reyes e Dez Cadena. O golpe de sorte veio com a falência da Unicorn, o que os libertou do impedimento e possibilitou que voltassem com toda força. Talvez isso explique a raiva transbordante de "My War", um álbum pesado, denso e claustrofóbico. Musicalmente, há influências do Black Sabbath aqui e acolá e, anos mais tarde, o disco seria classificado como um protótipo de sludge metal; e com razão.

- Na segunda parte, a entrada de Kira Roessler, o auge do experimentalisto de Greg Ginn, os conflituosos últimos anos e os acontecimentos atuais relacionados à banda. -